A arte de estar presente: o que um simples chá pode ensinar sobre a relação médico–paciente
Postado em: 07/11/2025

Na medicina, estamos muito acostumados a falar de protocolos, diretrizes e condutas baseadas em evidências.
Tudo isso é fundamental. Mas existe uma dimensão do cuidado que não aparece em exames, planilhas ou prescrições: ela acontece no encontro, na forma como eu chego para o paciente, escuto, respondo e me deixo tocar pela história que está à minha frente.
Foi exatamente sobre isso que uma vivência simples, com uma xícara de chá, me ajudou a refletir, e ajudou um grupo de colegas médicos a olharem para a própria prática com outros olhos, durante o VIII Congresso Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida, realizado entre os dias 23 e 25 de outubro de 2025, em Vitória (ES).
Neste artigo, quero compartilhar como foi essa experiência de mindfulness com chá, por que ela fala tanto da relação médico–paciente e o que eu levo, na prática, para o consultório depois desses dias em que ciência, presença e cuidado caminharam juntos.
Um congresso sobre como vivemos, não só sobre doenças
Participar do congresso do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida sempre é, para mim, um lembrete importante: não estamos falando apenas de tratar doenças, e sim de transformar a forma como vivemos.
A edição de 2025, em Vitória, reforçou esse propósito com um tema que resume bem esse movimento: “Transformando vidas, criando impacto: a era da Medicina do Estilo de Vida”.
Ao longo de três dias, médicos e profissionais de saúde de diferentes áreas se reuniram para discutir como os seis pilares da MEV, como alimentação, atividade física, sono, manejo do estresse, relações e substâncias de risco, podem ser aplicados de forma realista na prática clínica, com foco na pessoa e no contexto em que ela vive.
A Medicina do Estilo de Vida como ponto de encontro
Como neurologista, vejo todos os dias o quanto o cérebro responde ao que fazemos repetidamente: nossos hábitos, nossos pensamentos, nossa forma de lidar com o estresse. A Medicina do Estilo de Vida é, para mim, um ponto de encontro entre:
- O que sabemos sobre neurociência e saúde cerebral;
- O que a prática clínica mostra sobre o que realmente funciona no dia a dia;
- E o que a relação médico–paciente permite construir em termos de mudança.
Nesse contexto, a vivência que conduzi, mindfulness com chá, foi um pequeno laboratório de presença em meio à intensidade do congresso. E, ao mesmo tempo, um espelho da forma como eu entendo o cuidado.
Mindfulness com chá: uma pausa consciente no meio do congresso
Durante a vivência, fiz um convite que parecia simples: estar plenamente presente com uma xícara de chá. Nada de técnicas complexas, nada de performance, nada de objetivo grandioso. Apenas um chá. E a forma como nos relacionamos com esse momento.
Preparei o grupo para algo que, à primeira vista, poderia parecer “pequeno demais” para um congresso científico: sentir o calor entre as mãos, perceber o aroma que se revela aos poucos, notar o movimento de trazer a xícara aos lábios, acompanhar o sabor que muda à medida que o corpo e a mente se aquietam.
Sem pressa. Sem tentar “fazer certo”. Sem precisar chegar a lugar nenhum.
Do piloto automático à descoberta
No início, o ambiente refletia exatamente aquilo que tantas vezes aparece na rotina clínica: piloto automático ativado.
Pensamentos sobre a próxima atividade, comparações, julgamentos (“estou fazendo certo?”, “será que estou conseguindo prestar atenção?”), listas mentais sendo atualizadas.
Mas, pouco a pouco, algo mudou.
À medida que a prática avançava, o silêncio ganhou espaço. O simples ato de beber o chá começou a se tornar um campo de observação: sensações físicas, emoções sutis, memórias que surgiam, percepções sobre si e, de forma mais delicada, sobre o outro que estava ali, dividindo aquele momento.O que era “apenas um chá” virou uma lente de aumento para ver o quanto frequentemente não estamos presentes, nem com o paciente, nem conosco.

O que ouvimos depois do chá: relatos que falam de presença
Ao final da prática, abrimos espaço para o compartilhamento. Essa é sempre uma parte importante da vivência, porque a experiência interna ganha linguagem e, ao ser dita, inspira outras pessoas.
Muitos colegas confessaram ter percebido o quanto, no dia a dia, não costumam estar totalmente presentes, nem nas consultas, nem em casa, nem em momentos de descanso.
Alguns falaram sobre a dificuldade de “desligar” o pensamento clínico. Outros se surpreenderam com a quantidade de julgamentos automáticos que surgiam, mesmo numa atividade tão simples.
Mente de principiante e reconexão com o propósito
Um tema que apareceu com força foi a ideia de “mente de principiante”: olhar para algo conhecido (como uma xícara de chá, ou uma anamnese que já repetimos mil vezes) com curiosidade genuína, sem pressupor que já sabemos tudo o que está ali.
Surgiram relatos como:
- “Percebi que muitas vezes eu escuto o paciente já pensando na resposta.”
- “Quase nunca presto atenção em algo tão simples quanto o aroma ou a temperatura.”
- “A prática me lembrou por que escolhi a medicina e como quero estar com as pessoas quando elas chegam até mim.”
Em comum, havia um sentimento de reconexão: consigo mesmos e com o propósito que os fez escolher cuidar. Essa é, para mim, uma das chaves do mindfulness na medicina: não é uma performance, é uma forma de voltar ao centro.
A presença como ferramenta clínica
Essa vivência com o chá reforçou algo que eu já vinha observando na prática: a presença do médico é, em si, uma ferramenta clínica.
Não falo de estar presente apenas no sentido físico, mas de uma presença atenta, curiosa, interessada, que percebe não só o que é dito, mas também o que fica nas entrelinhas.
Quando estou realmente presente, muda a forma como eu ouço. E, principalmente, muda a forma como o paciente se sente ouvido.
O que as evidências mostram e o que o consultório confirma
Estudos em Medicina do Estilo de Vida, em neurociência e em psicologia da saúde têm mostrado que práticas contemplativas e treinos de atenção plena ajudam a cultivar habilidades essenciais na relação terapêutica, como:
- Escuta profunda, que fortalece vínculo e confiança;
- Regulação emocional, que reduz o estresse do médico e o risco de burnout;
- Compaixão e empatia sábia, que estimulam engajamento e adesão do paciente;
- Comunicação mais consciente, que evita julgamentos automáticos e amplia a compreensão das resistências e desafios de cada pessoa.
Na prática, isso se traduz em algo muito concreto: o paciente se sente visto e compreendido. E, quando isso acontece, a motivação para mudar passa a ser menos “imposta” e mais co-construída.

Presença que transforma hábitos e conversas difíceis
Sabemos que mudar estilo de vida não é uma questão de “falta de informação”. Quase todo mundo sabe, em algum nível, o que “deveria” fazer.
O que falta, muitas vezes, é espaço interno para sair do automático, olhar para os próprios padrões e, a partir daí, dar passos possíveis.
É aqui que a presença mindful do médico faz diferença.
Quando eu acolho o paciente com curiosidade e compaixão, em vez de crítica e cobrança, a consulta deixa de ser um “acerto de contas” e passa a ser um campo de aprendizado conjunto.
O paciente começa a observar seus hábitos e pensamentos com menos culpa e mais responsabilidade; eu, como médica, também fico menos reativa e mais aberta.
Comunicação mindful na prática
Na comunicação, isso aparece em detalhes que fazem grande diferença:
- Pausas antes de responder;
- Perguntas abertas, que convidam o paciente a refletir (“o que você percebe que mais dificulta esse ajuste?”);
- Validação da experiência (“faz sentido que seja difícil, dadas todas as coisas que você está vivendo”);
- Propostas graduais, em vez de planos perfeitos e inviáveis.
Esses elementos, somados, criam um ambiente em que a mudança se torna possível, porque a pessoa não precisa se defender o tempo todo. É isso que eu vejo quando levo o espírito da vivência com chá para dentro da consulta.
Quando a consulta se parece com uma xícara de chá
Uma imagem que ficou comigo, depois do congresso, é a de que cada consulta pode se parecer um pouco com aquele momento do chá.
Não porque vamos, literalmente, servir chá em todas as consultas (embora, às vezes, isso também possa fazer sentido), mas porque podemos criar um clima parecido: um convite silencioso à presença, um espaço em que seja possível saborear o encontro antes de responder, perceber antes de orientar.
Pequenas pausas que mudam a forma de cuidar
Na prática, isso pode significar:
- Respirar conscientemente duas ou três vezes antes de entrar na sala;
- Fazer uma pergunta de abertura que reconheça a pessoa (“como você chegou até aqui hoje?”);
- Permitir alguns segundos de silêncio depois de uma fala difícil, em vez de preencher imediatamente com explicações;
- Resumir, em voz alta, o que entendi do relato para checar se estou acompanhando bem.
São pequenas pausas, quase imperceptíveis, mas que mudam a qualidade do encontro. E, com o tempo, mudam também a forma como o paciente se relaciona com as próprias escolhas e sintomas.
Mindfulness também é cuidado de quem cuida
Outra camada importante dessa experiência no congresso foi olhar para nós, médicos, como pessoas em processo. Não somos apenas “facilitadores de mudança”; também estamos sujeitos a cansaço, sobrecarga, expectativas e pressões.
Na vivência com chá, muitos colegas perceberam o quanto não param nem quando tentam descansar. A mente continua planejando, antecipando, revisando. Estar presente, nesse contexto, é também um ato de cuidado consigo mesmo.
Permissão para voltar ao corpo
Ao guiar a prática, convidei o grupo a notar:
- A postura, o contato dos pés com o chão;
- A temperatura da xícara nas mãos;
- A musculatura dos ombros e da mandíbula;
- O ritmo da respiração.
Não é “apagar” pensamentos, e sim ampliar o repertório de atenção: incluir o corpo, a respiração, as pequenas sensações.
Quando fazemos isso com regularidade, ganhamos mais clareza para decidir, mais flexibilidade para lidar com imprevistos e mais recurso interno para estar com o paciente de forma inteira, sem nos esgotar tão rápido.
O que eu trago do congresso para o consultório
Depois desses dias em Vitória, volto para o consultório com algumas decisões renovadas. A principal delas é simples de dizer, mas exige prática: quero estar mais presente em cada encontro.
Isso significa:
- Continuar estudando, atualizando condutas e revisando evidências;
- E, ao mesmo tempo, não perder de vista que a forma como eu estou importa tanto quanto o conteúdo que eu entrego.
Um convite à presença, dentro e fora do consultório
Se eu pudesse resumir a vivência em uma frase, seria esta:
“Cuidar é, antes de tudo, um ato de presença.”
E presença não é um estado mágico ou reservado a momentos especiais. Ela pode ser treinada, suavemente, em gestos cotidianos: numa xícara de chá, numa respiração mais consciente entre uma consulta e outra, numa conversa em que escolhemos ouvir de verdade.
No consultório, sigo integrando neurologia, Medicina do Estilo de Vida e mindfulness com um objetivo claro: ajudar cada pessoa a cuidar melhor do próprio cérebro e da própria vida, a partir de mudanças consistentes e possíveis, construídas em um espaço de confiança, presença e respeito.
Se esse tema ressoar com você, fica o convite: talvez o próximo passo não seja uma grande meta, mas uma pequena pausa, como aquela primeira inspiração profunda antes de levar a xícara de chá aos lábios.
É nesse intervalo, entre o impulso e a resposta, que nasce a chance real de transformação.
Dra. Nancy Huang
Neurologista
CRM: 90846/SP
RQE: 23895