18º Congresso Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida: ciência, prática e cuidado que se encontram
Postado em: 07/11/2025

Entre os dias 23 e 25 de outubro de 2025, vivi três dias intensos no VIII (18º) Congresso Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida (CBMEV), em Vitória (ES).
Foi aquele tipo de encontro que mistura atualização científica, troca entre colegas e experiências práticas que, de fato, a gente leva para o consultório no dia seguinte.
O congresso cresceu, amadureceu e segue como uma referência na América Latina, e eu tive a alegria de contribuir em diferentes frentes: moderação de atividade científica, mesa-redonda sobre comunicação clínica e uma vivência prática de mindfulness com chá.
Minha sensação, ao final, foi simples e ao mesmo tempo profunda: cuidar do cérebro vai muito além de prescrever.
Envolve compreender como otimizar o funcionamento cerebral a partir de hábitos e escolhas de vida, como sono, alimentação, movimento, manejo de estresse, relações e sentido.
É a essência da Medicina do Estilo de Vida (MEV): integrar ciência, prática clínica e cuidado centrado na pessoa, para sustentar mudanças reais e duradouras.
Por que esse congresso importa para mim (e para meus pacientes)
A neurologia me ensina, diariamente, que o cérebro não existe isolado do corpo nem do contexto.
Quando pratico e ensino MEV, fico ainda mais convicta de que o cuidado neurológico precisa ter embasamento científico e dialogar com o cotidiano: como dormimos, como comemos, como nos movimentamos, como lidamos com a ansiedade e como nos relacionamos.
Em eventos como o CBMEV, consigo somar evidências, ferramentas e, principalmente, estratégias práticas para facilitar a vida do paciente e a minha, como médica.
MEV como ponte entre ciência e vida real
O congresso traz esse fio condutor: sair da teoria e operacionalizar a mudança. Em vez de “dever de casa impossível”, construímos juntos micro-metas, monitoramento gentil e ajustes conforme a vida acontece. É ciência aplicada com escuta, vínculo e comunicação clara.
Tudo pensando na maior missão de um neurologista que é, além de tratar enfermidades neurológicas, como potencializar a saúde do cérebro.

Dia 24/10, pela manhã: moderei a atividade “Como Faço Pesquisa na MEV”
Na sexta (24/10), estive à frente da atividade 1 – “Como Faço Pesquisa na MEV” como moderadora.
A proposta foi desmistificar o processo de pesquisa em Medicina do Estilo de Vida e mostrar caminhos concretos para quem quer produzir conhecimento mesmo fora de grandes centros.
O formato foi dinâmico, com perguntas práticas e exemplos reais. O objetivo: reduzir a distância entre o consultório e a produção científica.
Bastidores que contam: do desenho do estudo ao impacto no cuidado
Conduzi o grupo por três eixos:
- Formular boas perguntas clínicas (o que observo no consultório? o que ainda não sei? que desfecho é relevante para o paciente?);
- Escolher delineamentos factíveis (observacionais, séries de caso, registros, ensaios pragmáticos) com métricas simples e replicáveis;
- Ética, dados e divulgação (aprovação ética, consentimento, proteção de dados, e como compartilhar resultados de forma útil e honesta).
O mais bonito foi ver profissionais de diferentes áreas descobrindo que dá, sim, para produzir ciência com qualidade e pertinência e que pesquisar também transforma a prática diária, refina nossa escuta e melhora nossa tomada de decisão.

Tarde do dia 24/10: mesa-redonda “A Arte da Comunicação”
À tarde, participei da mesa-redonda “A Arte da Comunicação”. Eu trouxe um recorte que considero decisivo: “Simulação de Atendimento Médico Bom”.
A proposta não era encenar perfeição, mas tornar visível o que costuma ser invisível numa boa consulta: a ordem das perguntas, o tempo de silêncio, a validação das emoções, a negociação de metas e a clareza na explicação de exames, diagnósticos e plano terapêutico.
O painel teve outras falas complementares, conectando neurociência e comunicação clínica, e fechamos com discussão aberta.
O que, na prática, muda quando nos comunicamos melhor
- A adesão aumenta: quando o paciente entende o porquê, o como e o quando, ele participa.
- O plano fica realista: co-construímos metas graduais, mensuráveis e significativas.
- O vínculo fortalece: segurança e confiança não nascem de frases prontas, mas de escuta e transparência.
- O tempo rende: consultas claras evitam retrabalho, ruído e idas e vindas desnecessárias.
Levei casos anônimos do meu dia a dia em neurologia (com foco em sono, dor de cabeça e queixas cognitivas) para simular trechos de conversa.
O grupo pôde ver escolhas de linguagem, uso de metáforas simples, como estruturar recomendações por etapas e como documentar acordos.
Esse tipo de treinamento é humilde e transformador: ninguém “nasce sabendo”. A gente aprende, treina, revisa e melhora.
“Porque cuidar do cérebro é, antes de tudo, cuidar de como vivemos.”
Esse é o norte que levo para cada consulta e que ecoou forte na mesa.
Noite do dia 24/10: “Mindfulness com Chá”: uma vivência para desacelerar por dentro
Fechamos a sexta com as Vivências Práticas do congresso. Conduzi a atividade “Mindfulness com Chá”, um convite simples: estar presente, do preparo ao primeiro gole.
Num mundo de estímulos, o chá vira um laboratório gentil para treinar atenção, respiração, ritmo e consciência corporal.
A ideia é que o participante leve essa experiência para o cotidiano: uma xícara como âncora no meio do dia, uma pausa entre consultas, uma chegada mais humana em casa.
O congresso programou as vivências para a noite, e foi especial ver a sala em silêncio, só o som da água e o cheiro do chá.
Por dentro da prática: como traduzir mindfulness em rotina
- Atenção guiada: sentir temperatura, aroma, textura; perceber pensamentos indo e vindo sem precisar agarrá-los.
- Respiração como trilho: algumas respirações mais profundas antes do primeiro gole.
- Gentileza com o corpo: postura confortável, ombros soltos, mandíbula relaxada.
- Integração: ao encerrar, escolher uma micro-pausa por dia para repetir o ritual (não precisa ser chá; pode ser água, café, um minuto na janela).
Mindfulness, para mim, não é performance. É prática possível. E quando ela encontra a neurologia e a MEV, ganha corpo clínico: sono melhora, dor é percebida com menos sofrimento, escolhas ficam mais conscientes.

Um congresso vivo: ciência, natureza e gente
Uma marca do CBMEV é o calendário plural: ciência nas salas, atividades ao ar livre de manhã (corrida, yoga, canoa, beach tennis), vivências à noite e espaço para trabalhos científicos.
A programação é ampla e caprichada, justamente para estimular o cuidado integral, não apenas falar dele. E foi isso que se viu de quinta a sábado: conteúdo técnico, encontros e a cidade como cenário, tudo favorecendo que as ideias virem ação.
Entre colegas, nasce coragem
Dra. Nancy Huang
Neurologista
CRM: 90846/SP
RQE: 23895